sexta-feira, 20 de agosto de 2010

sábado, 7 de agosto de 2010

SE ALGUÉM CRITICA É PORQUE ESTÁ INCOMODANDO. OU PORQUE ALGO PODE ESTAR ERRADO.

Criticar alguém pode ser um ato cruel e injusto quando movido apenas pelo puro e simples desejo pessoal de atacar alguém sem maiores ou legítimas razões. A crítica pode ser uma atitude grosseira quando é um fim em si; um gesto reprovável quando é precipitada ou gratuita.

A crítica, entretanto, pode ter o seu valor quando é uma censura a um ato ou pensamento digno de reprovação. Neste caso, a crítica pode beneficiar a quem cometeu um erro, levando a refletir ou repensar a sua postura, ou até mesmo servir de alerta às demais pessoas para não caírem nos mesmos erros ou serem vítimas de enganos.

O meio evangélico parece ser avesso a qualquer tipo de crítica. Principalmente quando se trata de críticas feitas àqueles que se autodenominam “profetas de Deus”. Pessoas assim escondem-se atrás da uma equivocada interpretação bíblica do texto que diz não ser permitido tocar no ungido do Senhor. Aí qualquer um se julga no direito de assumir a posição intocável de “ungido do Senhor” e se coloca acima da possibilidade da crítica. Os excessos estão aí por toda a parte.

Criticar e censurar são atitudes próprias de quem não concorda com certas práticas. Não há nada de errado na crítica, desde que ela tenha um padrão confiável no qual se apóie. A crítica ou censura precisa conduzir a um padrão último e inquestionável. Se o padrão for desrespeitado, qualquer que seja o infrator e quaisquer que sejam as razões, a crítica se fará necessária para que se mantenha e defenda o padrão.

Martinho Lutero foi um crítico. Seu ato de protesto foi um gesto de crítica ao status quo da Igreja medieval. Um ato de protesto baseado no padrão indiscutível da Escritura. Haveria, por certo, quem se julgasse acima de quaisquer críticas na igreja do seu tempo. Mas diante do crivo da Escritura, ninguém permanece intocável se a ela não se render e submeter humildemente.

Assistindo a um programa do Silas Malafaia, observei a maneira como ele explica e se esquiva das críticas recebidas por causa dos seus efusivos apelos em favor de ofertas para o seu ministério: “Se criticam é porque está incomodando”. Logo, conforme o silogismo malafaista, se está incomodando é porque Deus está de acordo. Tenho lá minhas dúvidas a respeito disto. Ou, para ser justo ao texto, tenho lá minhas críticas.

Melhor seria se pudéssemos fazer uma avaliação mais sensata das coisas. Se alguém está criticando a postura assumida pelo senhor Malafaia, pode ser porque tem algo estranho nessa postura; pode ser porque não seja bíblico; pode ser porque não esteja correto. Por que a crítica ao Malafaia se transforma em um atestado de validação ao que ele faz? Se há pessoas criticando – e eu tenho certeza de que há gente muito séria e piedosa fazendo isto – talvez seja hora de repensar a direção, não é verdade? De onde vem tanta certeza de que suas decisões vêm de Deus? De onde vem tanta convicção de que as críticas são atestados de validação de seus atos?

As críticas, senhor Malafaia, podem ser um aviso de Deus também. Várias vezes Deus levantou críticos a fim de alertar seus servos a mudarem seus caminhos. Os que ouviram as críticas e souberam reconhecê-las humildemente foram preservados de grandes tribulações. Os que se mantiveram “intocáveis” às críticas conheceram os tristes resultados da vaidade auto-confiante. Se a crítica fosse um atestado de que as coisas estão corretas a Igreja nunca teria sido reconduzida ao caminho da Escritura e Lutero teria entrado para a história como um tolo. E nós sabemos muito bem quem estava com a razão.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O Verdadeiro Evangelho - Paul Washer (1/9)

Novos Evangélicos?!

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A revista Época desta semana (7/8/10) traz reportagem de capa sobre a reação de diversos segmentos da igreja evangélica ao crescimento das igrejas neopentecostais. O artigo pode ser lido aqui:

O título é Os Novos Evangélicos e a capa é ilustrada com uma foto da construção de uma réplica do templo de Salomão que está sendo realizada pela Igreja Universal em São Paulo.

O artigo representa um avanço na maneira como a mídia em geral trata os evangélicos, como se fossem todos farinha do mesmo saco. E farinha imprestável. Ricardo Alexandre, o articulista, reuniu depoimentos de líderes evangélicos de diversos segmentos (incluiu um sociólogo ateu) e mostrou como todos eles concordam numa coisa: sua rejeição às doutrinas e práticas das igrejas neopentecostais e o desejo por uma mudança profunda nos atuais rumos da igreja evangélica brasileira.

Neste ponto, nada a reparar. De fato, de pentecostais a episcopais, reações contrárias a estas igrejas, consideradas como seitas por algumas denominações históricas(*), têm sido veiculadas abertamente por meio de blogs e livros. Já estava na hora da grande mídia ouví-las e entender que nem todos que fazem reuniões onde o nome de Cristo é citado são necessariamente evangélicos ou mesmo cristãos.

Eu só fiquei um pouco desconfortável com dois ou três pontos da matéria que cito aqui. Estou à vontade para isto uma vez que meu nome foi mencionado no artigo, ainda que de raspão.

1) Achei que o título do artigo na capa é um equívoco histórico, pois “novos evangélicos” se aplica mais exatamente a grupos como a IURD, Renascer e Igreja Mundial e não aos que estão reagindo a estes grupos. Eu não me considero um “novo evangélico” e sim um bem antigo, com raízes históricas na Reforma do séc. XVI e teológicas nas Escrituras Sagradas. Não tem nada de “novo” em nosso desejo de ver o antigo Evangelho ser pregado corretamente em nossa pátria. Estas seitas é que chegaram ontem. Todavia, entendo o autor. Estes grupos neopentecostais cresceram tanto e influenciaram tanto a mídia e a opinião pública que viraram o padrão. Eles é que são os “evangélicos”. Quem não é como eles e quer mudanças é visto como o novo, a novidade.

Num certo sentido foi isto que aconteceu na Reforma. Os reformadores foram acusados pelos papistas de estar trazendo “novidades” na igreja, ao pregar que a justificação era pela fé somente. Lutero e Calvino retrucaram que estavam pregando as antigas doutrinas da graça, encontradas nos Pais da Igreja e nos ensinos de Cristo e de Paulo. Eu entendo que para uma igreja como a de Roma, com vários séculos de existência, os protestantes pareciam nova seita. Mas convenhamos - considerar episcopais, presbiterianos e assembleianos como “novos evangélicos” é passar recibo para a pretensão destes grupos sectários de serem igreja evangélica legítima.

2) Também achei que pode ter ficado a impressão para leitores menos avisados que os reacionários estão unidos entre si e que se aceitam mutuamente, sem problemas. Antes fosse. Mas, nem sempre o inimigo do meu inimigo é meu aliado. Eu entendo que o foco do artigo é as igrejas da prosperidade. Mas não posso deixar de ressaltar que aqueles que se levantam contra os abusos destas seitas não são necessariamente aliados entre si. Na verdade, pode haver entre eles diferenças tão abissais como a que existe entre eles e as seitas da prosperidade.

3) Denunciar o erro dos outros não nos absolve dos nossos. Se por um lado as seitas neopentecostais espalham um falso evangelho deformado pela teologia da prosperidade, há os que também propagam um evangelho distorcido pelo liberalismo teológico e por heresias antigas. As seitas da prosperidade acabaram sendo demonizadas como a própria encarnação do anti-evangelho a ponto de, conforme o artigo de Época, se fazer necessária uma nova Reforma protestante. Não discordo deste ponto, apenas considero que o enfoque nele acaba desviando a atenção de outras linhas de pensamento dentro dos arraiais cristãos que são tão prejudiciais quanto a teologia da prosperidade e que igualmente clamam por uma Reforma.

Por exemplo: e aqueles que destroem a fé em Jesus Cristo e nos padrões morais do Cristianismo? A mídia fica indignada com o mercenarismo dos pastores destas seitas, mas aplaude os evangélicos que defendem o casamento gay, o aborto, a teoria da evolução contra o relato da criação, o relativismo moral, o sexo livre e o ecumenismo com todas as religiões. A mídia não consegue enxergar que liberalismo teológico e teologia da prosperidade são irmãos gêmeos e hipocritamente aplaude um e condena o outro.

Não me entendam mal. A reportagem está correta. É preciso deixar claro que estes grupos neopentecostais estão deturpando o Evangelho de Cristo. Porém, é tendenciosa. Retrata os neopentecostais como a raiz de todos os males no meio evangélico, esquecendo o dano feito pelos liberais, pelos defensores de outro deus e pelos libertinos.

4) Por último, acho que faltou mencionar que os chamados “novos evangélicos” concordam apenas que é preciso uma mudança, mas discordam entre si quanto ao modelo de igreja que deve ocupar o lugar desta seitas. A Reforma do séc. XVI, em que pesem as diferenças entre os reformadores principais, tinha uma mensagem relativamente uniforme e praticava um modelo de igreja que era basicamente o mesmo. É só comparar as confissões de fé escritas por presbiterianos, batistas, episcopais, congregacionais e independentes para se verificar este ponto. Já os tais “novos evangélicos”… bem, há entre eles desde os “desigrejados,” que desistiram completamente de qualquer coisa que se pareça com uma igreja, até aqueles que desejam apenas expurgar o modelo tradicional de igreja dos acréscimos indevidos em sua doutrina, culto e prática, mantendo a pregação, o batismo e a ceia e o exercício da disciplina para os membros faltosos.

E no meio ainda temos os emergentes, as igrejas em células sem liderança oficial, igrejas com liturgia inclusiva e por aí vai.

É aquela velha história. Grupos contrários se unem contra um inimigo comum e após vencê-lo começam a brigar entre si. A luta comum contra as igrejas da teologia da prosperidade está longe de representar uma nova Reforma. Quando esta luta terminar - se é que vai terminar um dia - teremos de continuar a outra, mais antiga, que é contra o liberalismo teológico fundamentalista, o relativismo moral, o pluralismo inclusivista e o libertinismo que assolam os evangélicos no Brasil muito antes de Edir Macedo abrir seu primeiro templo. Para mim, estas coisas são até mais perniciosas, pois enquanto que as seitas neopentecostais criam suas próprias igrejas e comunidades, os liberais se infiltram nas estruturas e igrejas criadas por conservadores e drenam seu vigor até deixar somente a carcaça.

(*) A Igreja Presbiteriana do Brasil, por exemplo, passou a considerar a IURD e a Igreja Mundial do Poder de Deus como seitas desde julho de 2010, exigindo que membros destes grupos sejam rebatizados ao ingressarem nas igrejas presbiterianas locais.

Autor: Augustus Nicodemus Lopes
Fonte: [ O Tempora, O Mores! ]